Seminários Internacionais

Migrações e identidades: Conflitos e novos horizontes

por Nelson Noronha, em 14 de agosto de 2008.

A Universidade de São Paulo organizou, durante o ano de 2008, uma vasta programação destinada a comemorar o centenário da imigração japonesa ao Brasil. O Seminário Internacional “Migrações e identidade: Conflito e novos horizontes” foi uma das atividades dessa programação. O evento foi organizado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP com a participação da Osaka University, do Japão. No período de 03 a 08 de agosto de 2008 foi realizada uma Mostra de Cinema e Debates sobre os “Nikkeis no Brasil”, um ciclo de conferências e três mostras fotográficas. Entre estas últimas constou “Uma História Quase Esquecida: a imigração japonesa para a Vila Amazônia”, mostra de fotografias organizada pelo Museu Amazônico e transportada para a USP onde foi montada pelo Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA) e pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), sob a Curadoria da Professora Dra. Marta Amoroso, do Departamento de Antropologia (FFCH/USP) e Mariana Vanzolini (LISA/Departamento de Antropologia).

Nossa presença nestas atividades visou participar da abertura da exposição (que permanecerá no Hall da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP no período de 04 de agosto de 2008 a 10 de setembro de 2008), a assistir aos debatese demais eventos culturais do Seminário Internacional. Neste intento, estabelecemos contato com a Professora Helena Hirata, do CNRS, da França, que deverá ministrar um curso sobre pesquisa de gênero na UFAM, no período de 11 a 15 de agosto de 2008. Fizemos contato igualmente com o Professor Dr. Masato Ninomiya, do Departamento de Direito Internacional da USP, que será palestrante convidado do Seminário “Imigração Japonesa para a Amazônia: Raízes, Perspectivas e Vínculos com o Desenvolvimento Regional”, que será realizado nos dias 11 e 12 de setembro de 2008,em Manaus, no quadro da IV Feira Internacional da Amazônia (IV FIAM) -IV Jornada de Seminários Internacionais sobre Desenvolvimento Amazônico-, promovida pela SUFRAMA.

Ainda no mesmo sentido, estabelecemos um diálogo com a Professora Dra. Rose Satiko e o Professor Alexandre Kishimoto, do LISA/USP, que organizaram a Mostra de Cinema e Debates “Nikkeis no Brasil” a fim de avaliar a possibilidade de apresentá-la em Manaus, mediante o convite do Museu Amazônico.                                            

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Uma história quase esquecida: A imigração japonesa para a Vila Amazônia

Curadores da Ufam:
Paulo Koguruma (Prof. Dr. do Depto. de História ICHL/UFAM)
Dysson Teles Alves (Arquivista do Museu Amazônico)

O dia 18 de junho de 2008 marcará a comemoração do Centenário da Imigração Japonesa para o Brasil. Neste dia, no ano de 1908, os primeiros imigrantes japoneses aportaram na cidade de Santos-SP, dando início a fluxos imigratórios regulares, conduzidos pelas Companhias Japonesas de Imigração e Colonização. Nesse processo imigratório, desde 1910, houve aquisição de terras, tanto as já cultivadas quanto as de mata virgem, por compra ou por concessão, para a formação de núcleos coloniais, onde passaram a ser assentados quer imigrantes já residentes no Brasil quer colonizadores vindos diretamente do Japão. Em meados da década de 1920, em um momento em que a emigração para países como os Estados Unidos enfrentava condições desfavoráveis, os fluxos emigratórios japoneses voltaram-se então com maior intensidade para os países sul-americanos, especialmente para aqueles cujos potenciais de riquezas naturais funcionavam como um forte atrativo para imigração.

Nesse contexto, missões exploratórias para colonização da Amazônia ocorreram desde meados da década de 1920, tendo como desdobramento concessões de terras na região, que totalizaram mais de 2 milhões de hectares. É de uma dessas concessões que se originou o projeto de Vila Amazônia. Em 1927, os Srs. Kinroku Awazu e Genzaburo Yamanishi obtiveram a concessão de 1 milhão de hectares, que pouco depois, em 1931, foram transferidas para o Sr. Tsukasa Uyetsuka, fundador do “Instituto da Amazônia”, no município de Parintins, do qual surgiu o empreendimento de “Vila Amazônia”. Esse núcleo colonial se desenvolveu até 1942, quando foi decretado o congelamento dos ativos japoneses em virtude da II Guerra.
Segundo o Sr. Uyetsuka, em 1930, após a demarcação das terras, se iniciou a construção de “Vila Amazônia”, com fundação do “Instituto da Amazônia”, no Brasil, para receber alunos da Kokushikan Koto Takushoku Gakko (Escola Superior de Colonização Kokushikan), que fazia parte da estrutura do seu congênere de Tóquio, fundado também por iniciativa do Sr. Uyetsuka, naquele mesmo ano de 1930. Os discentes da Kokushikan Koto Takushoku Gakko eram escolhidos entre os graduados das Escolas Secundárias de todo Japão. Ali, nas palavras do ilustre fundador ensinava-se aos alunos como viver como cidadãos do Brasil, principalmente, devendo estudar a língua brasileira, o modo social e a vida de família, limpeza da floresta, queima das árvores, construção das barracas, o cultivo e fabricação de diversos tipos de produtos.

Em 1931, a Escola Superior de Tóquio enviou seus primeiros formados para o ”Instituto da Amazônia”, de Parintins, para que se dedicassem ao trabalho de colonização. Durante o período em que “Vila Amazônia” esteve nas mãos dos japoneses, emigraram para Parintins o total de 248 estudantes e de 150 famílias de imigrantes. Os colonos fizeram várias experiências com espécimes agrícolas locais e de sementes importadas, buscando um produto que garantisse a viabilidade comercial da colônia, priorizando-se a juta, cujas sementes foram importadas de Índia. As primeiras experiências com essas sementes fracassaram. Todavia, o cultivo da juta tornou-se viável graças aos esforços do Sr. Ryota Oyama, que obteve sucesso desenvolvendo uma mutação que se adaptou ao clima e ao solo da região. Formou-se uma nova variedade da juta, obtida por método de seleção natural, que posteriormente veio a receber o nome da família de seu descobridor. Em 1937, as famílias Oyama e Nakauchi produziram em conjunto cerca de 10 toneladas de fibras de juta de boa qualidade colocando-as no mercado. Desse momento em diante, os negócios da juta promoveram a prosperidade e desenvolvimento da colonização japonesa no Estado do Amazonas.

A plantação, o beneficiamento e a comercialização da juta fizeram com que os negócios japoneses no Vale Amazônico e de outros segmentos econômicos da sociedade local entrassem em franco progresso. Segundo Sr. Uyetsuka:Todos os nossos negócios no Vale Amazônico melhoraram. Vila Amazônia tornou-se um quarteirão ativo na vizinhança de Parintins. Foram construídos edifícios, tais como a Igreja, escola pública, casa de estar, central de Polícia e coletoria, uma central elétrica. (...) Depósito de prensagem e embalagem e bem assim também um armazém. Serrarias foram instaladas. As plantações de borracha foram prolongadas numa área de 1.000 hectares e a castanha plantada em uma extensão de 140 acres, esperando produzir frutas enquanto no rancho existiam 1000 cabeças de gado.

Até que os ventos da II Guerra atingissem o cotidiano da comunidade japonesa no Brasil, levando à expropriação dos bens dos colonos pelo Governo Brasileiro, o município de Parintins conheceu um grande desenvolvimento graças à produtividade de “Vila Amazônia”. A iconografia (fotografias) desta Mostra pretende apresentar alguns aspectos dessa trajetória da colonização japonesa de “Vila Amazônia”. A maior parte das histórias da imigração japonesa para o Brasil lembra-nos da presença dos imigrantes japoneses no Sudeste, notadamente, de São Paulo, ficando as histórias da imigração japonesa para as demais regiões brasileiras relegadas ao esquecimento. Nas imagens desta Mostra, encontram-se registrados traços de memória de “Vila Amazônia”. Ela objetiva avivar as lembranças da presença histórica e da contribuição da comunidade japonesa no Amazonas.

Se a função dos historiadores é lembrar o que os outros esquecem, é necessário manter acesa a memória da imigração japonesa para o Amazonas. E mais, ampliar essa memória construindo um acervo de documentação que nos permita articular uma história crítica dessa imigração, mergulhando nas múltiplas trilhas das memórias dos imigrantes e de seus descendentes. Além de “Vila Amazônia” houve outras colônias dos japoneses no Estado, tal como Maués e Andirá, antes de II Guerra Mundial; e da colônia de Efigênio Sales no após o conflito. Há muito por fazer em termos de se constituir uma pesquisa que permita vislumbrar a história da imigração japonesa na ocupação do Estado Amazonas. E que a presença dos nikkeis também faz parte da identidade da região.

Não é de hoje a relação do Museu Amazônico com preservação da memória da imigração japonesa para o Estado. No ano de 2000, foi realizada, no Museu Amazônico, exposição intitulada “Vila Amazônia: do Oriente ao Ocidente”, em que foram apresentadas imagens que narravam a criação de “Vila Amazônia” e sua trajetória como colônia japonesa e brasileira. No ano 2003, organizou-se, em Parintins, a exposição intitulada, “Nos rastros da história: Parintins e Vila Amazônia”, que mostrou a chegada dos japoneses em Parintins e processo de colonização de “Vila Amazônia”. A Mostra atual é uma ampliação dos trabalhos anteriores, acrescida de novas imagens e informações bibliográficas. Ela objetiva de manter viva a memória da imigração japonesa para o Amazonas, incentivando novos pesquisadores a se debruçar sobre o tema, permitindo tanto a busca novos documentos, quanto de novas problemáticas em relação ao processo imigratório dos japoneses para o Amazonas e para o Brasil, tanto em seus aspectos geopolíticos internacionais quanto no direcionamento das correntes imigratória em solo brasileiro.

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O acervo J. G. de Araújo e a memória da imigração japonesa para Amazônia

Equipe curadora da USP:
Prof. Dra. Marta Amoroso (Departamento de Antropologia / FFLCH/USP)
Mariana Vanzolini (LISA / Departamento de Antropologia)

Quando a eclosão da II Guerra Mundial Suspendeu as relações diplomáticas do Brasil com o Japão, surgia na Amazônia um novo ciclo econômico baseado na juta adptadapelos pesquisadores japoneses ao meio ambiente tropical. A juta amazônica tornar-se-ia nos anos 60, com o surgimento em Parentins da Fabril Juta, um dos principais produtos do Estado do Amazonas. Por trás do empreendimento, destacava-se a figura do comendador J. G. de Araújo, que arrematara em leilão no ano de 1946 a Copanhia Industrial Amazonense, desapropriada desde 1942 pelo governo brasileiros dos empresários japoneses.

A J.G. de Araújo entrou em cena quando a maioria dos imigrantes japoneses, que chegatam à região nos anos 1920, já haviam partido da Vila Amazônia. O templo Hakoon Kaika foi então adaptadopara dar lugar a uma escola da comunidade. Em torno da juta, por vezes associada à malva nativa da Amazônia, Parentins viveu um novo e efêmero ciclo de industrialização que perdurou até 1967, quando a indústria exportadora Fábril Juta desativadapelo governo federal.

Assim como a memória da imigração japonesa para a Amazônia, outras histórias de ciclos de extrativismo e de colonização convivem no acervo da firma comercial J.G. de Araújo, que guarda desde sua fundação, em 1877, em livros, diários e correspondências, o outro registro contábil e administrativo de mais de um século de atividades comerciais na Amazônia. A montagem da USP da mostra fotográfica " Uma história quase esquecida: a imigração japonesa para a Vila Amazônia" , organizada pelo Museu Amazônico em 2007, marca a colaboração entre os Programas de Antropologia Social da USP e da UFAM, que iniciam um trabalho de investigação sistemática deste excepicional acervo em busca de um maior entendimento das realç~oes que se dram na Amazônia envolvendo as populações nativas e migrantes.

 

 

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